terça-feira, 29 de outubro de 2013

Por que o senhor atirou em mim?

Por que o senhor atirou em mim?

"(...) Salvei companheiros da mesma tortura e da morte(...)"
"(...) Porque mentir na TORTURA não é fácil. Agora, na DEMOCRACIA, SE FALA VERDADE(...)"
"(...) Qualquer comparação entre a DITADURA e a DEMOCRACIA brasileira, só pode partir de quem não dá valor à democracia brasileira(..)" Dilma Rousseff.

E em mais uma "abordagem de rotina", mais um jovem periférico morto.
Mais um torturado. Mais um que sente a navalha cortando o peito, o sonho, a luta... Mais uma mãe sem seu filho e sem resposta. 

"Pra quem vive na guerra a paz nunca existiu". Pra quem é pobre a ditadura não acabou!
 Da democracia, só uma capa que cobre a opressão de uma forma de governo que, para muitos, ainda não mudou!

A comparação com a ditadura, Dilma, parte de quem dá valor ao direito de viver, à igualdade social.



terça-feira, 15 de outubro de 2013

OS NINGUÉNS


"As pulgas sonham com comprar um cão, e os ninguéns com deixar a 
pobreza, que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte 
a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, 
nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e 
mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o 
ano mudando de vassoura.
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e 
mal pagos:
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais 
da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata."

GALEANO, Eduardo - O livro dos abraços.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

N'água

Mergulho, pois a água bate à boca.
Respirar já não dá.
Melhor deixar pernas por caldas, 
que me levem pra outro lugar.
Que me levem ao fundo desse mar.
Que me levem a encontrar a rainha, a guia,
a mãe que me fará filha.

Sob a imensidão encontro seu lar,
e me afogo frente ao seu altar.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Canto pa' el alma en otro lugar

Soy hija de un lamento.
Soy madre de un niño viento.

Canto pa' el alma en otro lugar.
Sola, solita en mi penar.

Un día yo te buscaré
y quizás encontraré
El cielo que cambiará
en maravillas pa' jugar.

Un día yo te buscaré
y quizás encontraré
El río que traerá
el água que me limpiará.

Eis aurora frente a escuridão nuturna

Desilusão sim.
A tristeza já não é silenciosa.
Grita, arranha e se alimenta de tudo que há em mim.
Sou carne viva,
mas não fraca!
Cada dia, cada passo.
Cada dia, cada passo.
Para cada noite de dor imunda,
há um dia e um passo.
Grita, arranha,
mas segura o pranto que não é hora de parar.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A noite dissolve os homens

“A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.

A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda, sem esperança…
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes!
nas suas fardas.

A noite anoiteceu tudo… O mundo não tem remédio…
Os suicidas tinham razão.

Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.

Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam
na escuridão
como um sinal verde e peremptório.

Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.

O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes
se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão
simples e macio…

Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.”


Carlos Drummond de Andrade.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Meu gosto já não te serve.
E à ninguém mais serve.
Meu corpo caminha só,
por entre tranças e suores,
ruas e vielas.
E, por essas, serve de consolo à alma ferida,
um sorriso e abraço apressados.