sexta-feira, 23 de agosto de 2013

E lá no Egito...

Aqui, um depoimento publicado página do Ópera Mundi de Jade El Jabel, brasileira, que nos mostra um outro lado do que acontece no Egito, nos últimos tempos.

"Caros amigos do Ópera Mundi!
Primeiramente, obrigada por estarem aqui!
Eu cheguei, sozinha, no Cairo no dia 26 de janeiro de 2011, exato dia q foi decretado o primeiro "Toque de Recolher" na época, e fiquei até o início de abril, também estava aqui durante as eleições de 2012 que colocaram M. Musri no poder e estou aqui agora, cheguei no dia 2/8, 5 exatos dias antes da polícia iniciar a "retirada" dos Simpatizantes da Irmandade Muçulmana de seu, então, "acampamento" e as minhas impressões, estando aqui nos três episódios, é um pouco diferente...
O Cairo é como São Paulo! Você está em Moema e há minutos dali, está o Capão Redondo e o modo de ver São Paulo para quem mora no Capão e em Moema é completamente diferente, como a própria Tamires comenta (sobre um amigo que mora em Nassr City). O Ma'adi, no caso, seria "Moema".
A saber, sou muçulmana (convertida desde 200, sim, Muçulmana E Bailarina, mas isso é uma longa outra históra!) e falo árabe o que me dá um certo "Visto" para conversar com os Egípcios sobre "Questões Internas", pois sem saber a língua ou conhecer a cultura, como Tamires mencionou, eles, sim se ofendem quando "gringos" se metem em assuntos "internos">
No ano passado, milhares de moradores de rua e miseráveis, imediatamente antes das eleições "desapareceram" das ruas. Estes, de acordo com os egípcios, foram "abrigados e alimentados" por simpatizantes da Irmandade e seu então Candidato, M. Musri, que ganhou as eleições de forma bem "apertada". Um brasileiro mediamente bem informado já viu isso ocorrer em menor escala no Brasil, certo? (lembrando: o deputado da "cidade dos banguelos" que ganhou uma eleição oferecendo dentaduras!). Minha melhor amiga aqui no Egito é uma egípcia religiosa, que usa Hagab (traje "apropriado" para mulheres muçulmanas) e jamais apoiou o Musri ou a Irmandade Muçulmana. Tenho professores que são "pró Musri" e temos discussões saudáveis a respeito disso. Sim, é possível! Eles crêem que meus argumentos "anti-Irmandade" sejam "pró Dança do Ventre", entretanto são "pró-Islam", uma coisa muito difícil de explicar, até mesmo num país liberal como o Brasil, portanto, uma eleição feita "na barganha", na minha opinião, é tão inconstitucional quanto um Golpe Militar!
No ano passado, após o resultado das eleições, em conversas com amigos aqui (a maioria muçulmanos e religiosos que, apesar disso são amigos de uma pessoa "como eu", talvez exatamente por não terem nada a provar a ninguém) especulamos que o Exército deixaria o Musri "brincar um pouco" e depois daria o Golpe, era uma coisa muito óbvia de acontecer, já que 80 % do PIB do Egito (dados de um jornal local em 2011) vem do Turismo que é "Haram" (Pecado, na opinião de alguns muçulmanos, pela associação à "Idolatria de seres humanos" - Templos faraônicos, pirâmides, etc, ou Dança do Ventre e ainda "presença massiva de infiéis") a questão do Egito virar Sharia (que é como, por exemplo a Arábia Saudita, onde a Lei é baseada no Alcorão) seria economicamente inviável.
Durante a "passagem do Musri" pelo poder, o Egito começou a "virar o Afeganistão". O Estado tinha, então, duas opções: 1 - Virar Sharia, de fato e "quebrar" e 2 - Intervenção Militar. Preferiram a segunda (eu, particularmente, também! Já que boa parte das atitudes dos "então simpatizantes" e, agora, de acordo com alguns egípcios "terroristas", apóio o Golpe é aí que minha postura é "pró-Islam, usando a expressão que os muçulmanos têm usado aqui, "eles rasgaram o Alcorão, derramando sangue de irmãos muçulmanos nas ruas").
Quando a polícia "entrou em cena", foi, imediatamente, recebida a balas. A Imprensa Internacional (parte por ignorância, parte por más intenções e ainda, boa parte porque "sangue vende na TV"), simplesmente, "pulou" toda esta parte da história que eu estou contando e foi, diretamente, "dos Jovens que faziam manifestações pacíficas na Praça "Tahrir" para a "Intervenção Truculenta da polícia no Egito".
Pergunto: Os USA estão apoiando um "levante do Eixo do Mal" (como eles definem os Partidos associados à Religião Muçulmana) porque o Exército "passou por cima" dos direitos humanos? Cola? Cola pra quem? Agora, "ameaçam retirar o auxílio" sobre este mesmo argumento?
Em 2011, entrei em contato com a Imprensa brasileira (pelo meu perfil, como expliquei aqui e meu interesse político em questões que envolvem o Islamismo) chegando a contatar um correspondente de um Jornal de São Paulo que estava aqui, dei a ele meu telefone, endereço, pedi para que me contatasse, disse que poderia, talvez "cooperar" com a Imprensa brasileira, tentei a mesma coisa em um Blog de um jornalista brasileiro (que estava discutindo o que ocorria aqui, à época) e fui "dispensada por ambos".
Agora, aqui, ao ver o espaço, não resisti em postar parte da minha visão das coisas, em português (tenho traduzido artigos locais, do inglês - meu árabe não dá para tanto! - e escrito o que ouço dos próprios egípcios, via Redes Sociais), na esperança de cooperar, ao menos com "mais uma visão" sobre o que e porque as coisas ocorrem da forma que estão ocorrendo aqui no Egito e, de antemão, agradeço pela oportunidade.
Permanecerei no Egito somente até o dia 30/8 e, até lá, estou a sua inteira disposição!
E, para finalizar, faço uso de uma estatística da semana passada para informar aos brasileiros que pode ser que eu esteja bem segura aqui no Egito segura: 37 mulheres são estupradas por semana na Cidade de São Paulo onde tenho orgulho de ter nascido e viver até hoje e à mais esta estatística, nem o Estado nem a maior parte da Mídia do Brasil presta a Menor Atenç
ão."

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